domingo, 4 de janeiro de 2009

2009


Je vous souhaite une Anné 2009 douce et creative!



Passagem do Ano
Carlos Drummond de Andrade

O último dia do ano não é o último dia do tempo.

Outros dias virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis, farás viagens e tantas celebrações de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral, que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão.

O último dia do tempo não é o último dia de tudo.

Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens.

Um homem e seu contrário, uma mulher e seu pé, um corpo e sua memória, um olho e seu brilho, uma voz e seu eco, e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.

Mereceste viver mais um ano.

Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.

Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, mas estás vivo.

Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.

O recurso da dança e do grito, o recurso da bola colorida, o recurso de kant e da poesia, todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.

O corpo gesto renova-se em espuma.

Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.

A boca está entupida de vida.

A vida escorre da boca, lambuza as mãos, a calçada.

A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

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